A culpa materna raramente deriva de um erro real ou de uma falha concreta. Na maioria das vezes, ela é fruto da distância entre a mãe real, com suas limitações, cansaço e ambivalência, e a mãe idealizada, uma figura mítica onipotente e inesgotável.
A culpa paralisa, aponta para trás, busca culpados. A responsabilidade afetiva é prospectiva: reconhece o impacto emocional que temos sobre o outro e nos convoca a escolher como habitamos a relação.
Responsabilidade afetiva implica em reconhecer: 'meu estado emocional afeta meu filho'. Não para culpar-se, mas para escolher. Implica em saber que, quando grito movida por uma frustração que não tem a ver com a criança, estou transmitindo algo que não lhe pertence — e que posso, depois, reparar.
O conceito de reparação, de Melanie Klein, é vital aqui. A reparação é o movimento psíquico que surge a partir do reconhecimento de que ferimos (real ou fantasmaticamente) o objeto amado. É esse reconhecimento que permite o gesto de consertar, de reafirmar o vínculo.
Esse 'círculo benigno' de machucar e consertar, repetido inúmeras vezes, é profundamente estruturante para a criança. Ele ensina que o amor é mais forte que o ódio, que os relacionamentos podem sobreviver a conflitos e que a reparação é sempre possível.
Algumas reflexões práticas:
1. Quando sentir culpa, pergunte-se: 'De onde vem essa exigência? É minha ou foi herdada?'
2. Substitua 'eu deveria' por 'eu escolho'.
3. Pratique a auto-compaixão: você não precisa ser perfeita para ser suficientemente boa.
4. Quando errar, repare: peça desculpas, reconheça o impacto, reafirme o amor.
Você não vai se tornar a mãe perfeita. Você vai se tornar a mãe que pode ser — consciente, presente e livre para escolher o que transmite.